Esse keynote foi diferente, não foi só mais uma apresentação técnica ou diversos lançamentos, na verdade foi uma aula e uma despedida.
Depois de 14 anos consecutivos subindo no palco do re:Invent, o Werner Vogels anunciou que este foi o seu último keynote na conferência. Ele deixou claro que não está saindo da Amazon (continua como VP e CTO), mas que chegou a hora de dar espaço para novas vozes. "Vocês merecem ouvir engenheiros mais jovens, com perspectivas diferentes", ele disse (em tradução livre).
E olha, ele aproveitou essa última apresentação pra deixar uma mensagem muito forte pra todos nós que trabalhamos com tecnologia nesta era de IA...
A IA vai tomar meu emprego?
Logo no começo, o Werner foi direto na pergunta que todo mundo quer fazer mas tem vergonha: A IA vai tomar meu emprego?
A resposta dele? Talvez
Mas calma… a frase seguinte dele é o que importa: A IA vai me tornar obsoleto? Absolutamente não, mas... se você evoluir. (forte isso né?)
E gente, de verdade, isso resume tudo, eu concordo 100% e não é a primeira vez que a gente ouve que "agora sim os desenvolvedores vão acabar" já falaram isso com compiladores/IDEs, com cloud, com low-code, e aqui estamos, como eu digo para alunos e colaboradores, a IA está entre nós, é realidade, é ferramenta, precisamos utilizá-la para potencializar o que fazemos.
Meu pensamento: da mesma forma que não se nega usar uma IDE para usar um bloco de notas, não devemos negar usar a IA para potencializar o que desenvolvemos!
Renaissance Developer
Werner apresentou um conceito/framework comparando com o período do Renascimento (aquele mesmo, de Da Vinci, Galileu). Na época, depois de um período de "trevas", surgiu uma explosão de curiosidade e invenção, onde arte, ciência e engenharia caminhavam juntas.
Estamos vivendo algo parecido hoje com IA, robótica, exploração espacial, tudo avançando e se retro-alimentando. Foi aí que ele apresentou o framework do Renaissance Developer, com 5 qualidades essenciais (me lembrou o well architected framework).
1. Seja Curioso — a base de tudo, aquela vontade de desmontar as coisas pra entender como funcionam. A ideia que Werner passou foi: "Curiosidade leva ao aprendizado e à invenção." Se você parar de aprender, você para no tempo. (E olha, isso vale pra qualquer área, não só tech)
2. Pense em Sistemas — não basta resolver o problema na sua caixinha. Você precisa entender como sua mudança afeta o todo. Ele usou uma analogia sensacional: quando lobos foram reintroduzidos no Yellowstone, o ecossistema inteiro mudou, até o curso dos rios. Sistemas distribuídos funcionam de forma semelhante, alterar uma política de retry pode afetar toda a carga do sistema.
3. Comunique com Clareza — essa foi boa, eu sempre comento que a maioria dos problemas da empresa é de comunicação, até mesmo em times pequenos, às vezes a gente peca e não se comunica bem. Werner trouxe a reflexão, com IA gerando código via linguagem natural, a precisão da sua comunicação virou skill. A Claire Liguori (Senior Principal Engineer do time do Kiro) subiu no palco para mostrar como spec-driven development funciona na prática, você especifica claramente o que quer antes de deixar a IA gerar código. Menos ambiguidade, menos código errado. "Esse lance de conectar um Keynote com um cliente ou nesse caso com uma engenheira de produto como no caso do Kiro e pegar uma dor real dessa de comunicação, e trazer para o conceito de specs do Kiro, foi muito top"
4. Olhar de Dono (Ownership) — talvez a mensagem mais importante do keynote. Vibe coding é ok, mas só se você prestar muita atenção no que está sendo construído. O trabalho é seu, não das ferramentas. Se você constrói, você é o dono. E gente, isso é sério, se a IA gerar código que viola uma regulação, a culpa é sua, não do modelo. Você não pode chegar pro regulador e falar "ah, mas a IA que fez". Code review ficou mais importante do que nunca, nada de colocar a responsabilidade na IA, use ela como potencializador, mas revise tudo!
5. Torne-se um Polymath — o Werner usou o exemplo do Jim Gray (inventor das transações em banco de dados, pra quem não conhece, sim eu precisei pesquisar isso). Um cara que era absurdamente bom em databases, mas que também entendia de astronomia, física e negócios. Era um desenvolvedor "T-shaped", profundo em uma área, mas com amplo conhecimento em várias outras. (Esse conceito eu levo pra vida, ser especialista em algo mas ter noção do todo faz toda diferença)
O Problema da "Verification Depth"
Outro conceito que Werner trouxe, a IA gera código mais rápido do que você consegue entender. E isso pode ser perigoso, a ideia é que quando você escreve código, a compreensão/aprendizado vem junto com o desenvolvimento, já quando a IA que escreve, você precisa adquirir essa compreensão do código. Por isso, code reviews "humanos" são tão importantes agora.
Demonstração do Kiro — a IDE da AWS
A Claire Liguori mostrou na prática como o spec-driven development funciona no Kiro, em vez de jogar um prompt qualquer e torcer pro melhor "vibe coding" ela mostrou a importância de definirmos bem:
- Requirements: o que precisa ser feito
- Design: como vai ser arquitetado
- Tasks: passo a passo de implementação
Cada etapa pode ser refinada antes de gerar o código direto no Kiro, isso reduz bastante o retrabalho, alucinação e erro, quantas vezes especificando e lendo a gente já não começa a entender melhor o que realmente queremos?
Now Go Build Award
O prêmio deste ano foi pro Rafael Vincent Wang, das Filipinas. O cara co-lidera o AWS User Group Philippines desde 2013 e é AWS Hero desde 2015. Representa bem o espírito do keynote, alguém que constrói comunidade, compartilha conhecimento e mentora outras pessoas. Sim me identifico, rsrs.
The Kernel: O Jornal do Werner
Uma coisa diferente esse ano, cada cadeira tinha um jornal impresso chamado "The Kernel", com artigos de líderes da AWS, a playlist de coding do Werner, e reflexões sobre o futuro dos desenvolvedores, um item físico para marcar o momento.
Aí veio a despedida
Werner encerrou falando sobre orgulho profissional, e comentou que a maior parte do que construímos ninguém nunca vai ver. O cliente clica um botão, o pacote chega, ninguém pensa nos engenheiros que mantêm o catálogo, a cadeia de suprimentos, os sistemas de alta disponibilidade rodando de madrugada, fds.
A única razão pela qual fazemos isso bem é o nosso próprio orgulho profissional em excelência operacional. Isso é o que define os melhores Builders.
E aí veio o Werner, out! fim de uma era.
Reflexão
Esse keynote não foi sobre produto ou lançamentos, foi sobre pessoas e sobre a evolução da nossa profissão.
Werner passou 14 anos nos lembrando que debaixo de todo hype, construir software bem é sobre princípios, pessoas e fundamentos.
E na última vez dele no palco, ele escolheu falar sobre o que precisamos nos tornar enquanto profissionais, e não sobre o que a Amazon Web Services (AWS) está lançando.
Se você trabalha com tecnologia, vale assistir o replay inteiro, mas se tiver que levar só uma coisa desse keynote, eu diria que é isso…
As ferramentas vão continuar mudando, os desenvolvedores que evoluem vão continuar sendo essenciais, o trabalho é seu, não das ferramentas.
Renaissance Developer, faz sentido? Comenta aí.